Ataque cardíaco: como reconhecer, prevenir e proceder

Por: - Médico Cardiologista - CRM/SC 4101 RQE 1132
Publicado em 12/05/2017

Ataque cardíaco: como reconhecer, prevenir e proceder

O ataque cardíaco é o nome popular para o infarto do miocárdio, doença que atinge e diariamente faz vítimas em todo o mundo, devido à interrupção ou diminuição do fluxo de sangue para o coração.

Em situações normais, o sangue é bombeado pelo coração e circula através das artérias coronárias e veias, irrigando todos os tecidos do corpo, inclusive o próprio coração. No infarto do miocárdio, essa circulação é interrompida, o que reduz repentinamente a quantidade de oxigênio que chega ao músculo cardíaco.

O sangue carrega diversos nutrientes essenciais para a vida das células, como o oxigênio. Dessa forma, quando ele não circula do jeito que deveria, as células começam a se deteriorar, o que pode trazer sérias consequências para a saúde.

Quando esse bloqueio ocorre no próprio coração, a musculatura começa a lesionar-se. Se esse problema tiver longa duração, uma parte do órgão morre e para de funcionar totalmente. Diversos termos são usados para designar esse evento. Dentre os mais empregados, destacam-se: infarto, enfarte e ataque do coração. A palavra infarto é mais usada no Sul do Brasil e enfarte, em outras regiões.

Na maioria das vezes, o óbito ocorre por falta de atendimento imediato. A intervenção rápida, feita nos primeiros minutos após o início dos sintomas, pode salvar o indivíduo de uma morte súbita, causada por uma parada cardiorrespiratória, e deve ser realizada por quem estiver mais próximo.

Quer saber mais sobre o ataque cardíaco, porque esse problema ocorre, quais são os seus sintomas e como ajudar uma pessoa que está infartando? Então continue lendo esse artigo e confira.

Por que o ataque cardíaco ocorre?

Várias condições podem causar o ataque cardíaco. A principal delas é a aterosclerose, condição caracterizada pelo acúmulo de gordura na parede das artérias, que formam verdadeiras placas que podem obstruir o vaso e impedir o fluxo de sangue a partir daquele local.

A obstrução de uma das artérias coronárias, geralmente, ocorre quando a placa se rompe e plaquetas agregam-se a ela, formando um coágulo (trombo) que impossibilita o sangue de circular normalmente. Isso faz com que o paciente apresente os sintomas característicos de um infarto agudo do miocárdio, como a pressão no peito, que irradia para os braços, falta de ar e sensação de morte.

Não há uma causa única para as doenças cardiovasculares, mas existem fatores que aumentam a probabilidade de que ocorram:

  • hipertensão arterial;

  • dislipidemias (níveis elevados de gordura no sangue);

  • tabagismo;

  • diabetes mellitus;

  • estresse;

  • sedentarismo;

  • obesidade;

  • alimentação gordurosa;

  • hereditariedade, ou seja, histórico de ocorrência da mesma doença em outros membros da família.

A prevenção, a identificação precoce e o controle desses fatores de risco são medidas que diminuem as chances de um ataque cardíaco.

Fatores de risco para o ataque cardíaco

Existem alguns fatores que tornam o paciente mais vulnerável a ter um ataque cardíaco. Isso, na medicina, é chamado de fatores de risco. Confira quais são eles para o infarto agudo do miocárdio.

1. Pressão alta (hipertensão arterial sistêmica)

A pressão arterial corresponde à força com que o sangue é empurrado contra as paredes das artérias coronárias no momento em que ele sai do coração e é levado para todo o corpo. Como já falado, essa circulação é importante para a nutrição de todo o organismo. Quanto mais difícil for para o sangue passar pelas artérias, maiores serão os valores da pressão arterial e maior será o trabalho do coração.

A pressão considerada normal, em um adulto, deve estar abaixo de 140/90 mmHg (popularmente conhecida como 14×9). Valores mais altos que esse indicam hipertensão arterial sistêmica (HAS).

Vale ressaltar que a pressão alta é uma doença caracterizada pelos valores altos de forma contínua. É normal ter medições fora dos padrões em momentos de tensão, como em uma consulta com o médico.

2. Colesterol e triglicerídeos em níveis elevados

O colesterol e os triglicerídeos são algumas das gorduras importantes para o ser humano. São encontradas no sangue e como não se dissolvem totalmente na água, são transportadas sob a forma de partículas chamadas VLDL, LDL e HDL.

As LDL levam o colesterol para as paredes das artérias coronárias e, em níveis elevados, aumentam o risco da ocorrência de um infarto do miocárdio. São conhecidas como “mau colesterol”.

As HDL protegem o coração, retirando as LDL das paredes das artérias e diminuindo a chance de um ataque cardíaco. São chamadas “bom colesterol”. E as VLDL são ricas em triglicerídeos, que têm um importante papel energético, mas que, em níveis elevados, podem levar à obesidade.

Todas essas gorduras podem ser controladas por meio da alimentação e da realização de exames periódicos. Os valores desejáveis são:

  • colesterol total (VLDL + LDL + HDL): menor que 200 mg/dl;

  • LDL colesterol: menor que 130 mg/dl;

  • HDL colesterol: maior ou igual a 35 mg/dl;

  • triglicerídeos: menor que 200 mg/dl.

3. Diabetes mellitus

O diabetes é uma doença caracterizada pelo excesso de açúcar no sangue. Está associado à aterosclerose e a uma maior probabilidade de infarto. A presença de um fator de risco adicional, como obesidade, pressão alta ou tabagismo, aumenta, ainda mais, as chances de uma pessoa sofrer um ataque cardíaco. O valor desejável de glicose no sangue, em jejum, é de 75 a 110 mg/dl.

É importante dizer que a pré-diabetes também é aumenta as chances de ocorrer um infarto. Esse problema ocorre quando os níveis de açúcar estão mais altos do que deveriam, mas não chegam ao nível específico para ser considerado diabetes.

4. Tabagismo

Outro fator de risco para o ataque cardíaco é o tabagismo. A nicotina provoca o estreitamento das artérias, o que diminui a oferta de sangue para os vasos do coração. Além disso, a substância pode aumentar a pressão arterial e o número de batimentos cardíacos por minuto.

O prejuízo causado pelo tabagismo é proporcional à quantidade de cigarros consumidos e ao tempo de duração do vício. Ou seja, quanto maior for a duração do vício e a quantidade de cigarros fumados por dia, maiores serão as ameaças de infarto para um fumante. Esses riscos não diminuem com o consumo de cigarros de baixos teores.

5. Vida sedentária

A prática de exercícios físicos reduz em até 14% o risco de ataque cardíaco. Isso acontece porque esse tipo de atividade traz diversos benefícios para o corpo, auxiliando no controle de fatores, como:

  • hipertensão arterial;

  • diabetes mellitus e

  • níveis de colesterol e triglicerídeos.

Além disso, também ajuda a evitar o excesso de peso.

É importante realizar exercícios regularmente sob a orientação de profissionais capacitados para prevenir a doença. A falta de acompanhamento adequado na realização de qualquer atividade física incorre na possibilidade do aparecimento inesperado de problemas cardiovasculares e lesões osteoarticulares ou musculares.

Mas atenção, antes de iniciar qualquer tipo de atividade física é essencial fazer um check-up cardíaco, para verificar a saúde das artérias coronárias e observar se não há outros sintomas que se apresentam na realização de esforço, como a falta de ar. A não realização dessa checagem pode causar um ataque cardíaco e levar o paciente a morte súbita.

6. Estresse

A tensão emocional, o nervosismo, a vida agitada e as pressões a que somos submetidos diariamente no trabalho e em casa fazem parte do que é conhecido como estresse. Um estudo publicado na revista Arquivos Brasileiros de Cardiologia mostram que indivíduos submetidos a altos níveis de tensão de forma constante apresentam maior risco de infarto do miocárdio. Deve-se, então, controlar o nível de estresse, incluindo, na rotina diária, a realização de atividades prazerosas.

Em que idade ocorre o infarto? Atinge homens e mulheres na mesma proporção?

O infarto pode ocorrer em qualquer pessoa com idade acima de 25 anos, mas é mais frequente entre os 45 e os 65 anos. A doença pode se manifestar em qualquer momento, mas, normalmente, acontece nas primeiras horas do dia, quase sempre de forma abrupta, durante o repouso ou na presença de emoções fortes. Em todos os casos, o aparecimento dos sintomas, como a pressão no peito e a falta de ar, ocorre de forma inesperada, o que é uma das características do ataque cardíaco.

O que se ouve falar, frequentemente, nas conversas em geral e durante o diálogo entre médicos e pacientes é: “Eu sei que coração não dói e, por isso, não me preocupo tanto por causa dessa dor no peito.”

Não se conhece a origem desse entendimento, mas ele é completamente errado. No entanto, muitas pessoas o tomam como verdade. Esse é um fator muito negativo, responsável pelo atraso na identificação de doenças no coração e traz consequências graves.

Para desfazer esse mal-entendido, de que o coração não dói, é preciso reforçar que o esse órgão dói, sim. Há duas formas dessa dor se manifestar: angina do peito e infarto do miocárdio.

A dor da angina

Na angina do peito, a dor é forte, em aperto, opressão, queimação, ardência ou peso. Localiza-se, geralmente, no centro do peito, atrás do osso, mas também pode ser sentida em outras partes do corpo, como:

  • braço esquerdo;

  • braço direito;

  • ambos os braços;

  • pescoço;

  • mandíbula e

  • costas.

Não raro, a dor começa nos braços, na região do estômago, no lado esquerdo ou nas costas e, minutos depois, pode se estender para o centro do peito. De forma geral, essa dor é provocada por esforço e emoções, mas também pode ocorrer após refeições, em repouso ou durante o sono. O sintoma tende a desaparecer em poucos minutos.

Diferencia-se de outras dores no peito por não se agravar com a respiração, com a tosse, com movimentos do tórax, por compressão no local ou por mudanças de posição do corpo.

A dor do infarto do miocárdio

No infarto do miocárdio, a dor tem características semelhantes à da angina do peito. Porém, é possível diferenciar por surgir com maior frequência quando a pessoa está em repouso, por ser mais intensa e prolongada, e por vir acompanhada de outros sintomas, como:

  • mal-estar intenso;

  • sensação de morte iminente;

  • falta de ar;

  • suor frio e

  • vômito.

É uma das dores mais fortes que existem, por isso o paciente sente a necessidade de fazer tudo possível para interrompê-la.

Como saber se uma pessoa está tendo um infarto cardíaco e como proceder?

Como já falado, o ataque cardíaco é um problema que causa uma dor muito forte no peito que é impossível de ser tolerada por muito tempo. Além disso, ele também pode ser acompanhado de outros sintomas, como falta de ar, suor frio, palidez e sensação de morte iminente. Se você encontrou alguém com um ou mais de um desses sinais, é possível que ela esteja infartando

A ajuda para aliviá-la deve ser imediata, por meio do atendimento especializado, quando disponível, ou pelo serviço médico mais próximo. Nos casos em que a pessoa souber que tem doença cardíaca e a estiver tratando, ela deve seguir as recomendações médicas em caso de dor e procurar imediatamente o hospital ou centro médico que realiza o seu atendimento.

Mesmo após o episódio, é necessário ter cuidados para evitar outros ataques cardíacos. Por isso, é preciso mudar os hábitos de vida para prevenir outros infartos. Entre as principais recomendações, estão:

  • reduzir o nível de gorduras no sangue;

  • diminuir o peso;

  • abandonar o cigarro;

  • fazer exercícios físicos;

  • controlar a pressão arterial e

  • tomar os medicamentos recomendados.

Diagnóstico e tratamento

O diagnóstico do ataque cardíaco é puramente clínico, confirmado por um exame, chamado eletrocardiograma. É fácil detectá-lo. Em alguns casos, o médico também indica a realização de uma arteriografia coronariana para avaliar a estrutura das artérias coronárias, que alimentam o coração.

O tratamento inicial consiste em desentupir, o mais rapidamente possível, a artéria acometida. Isso é feito com o uso de substâncias que diluem o sangue e dissolvem o coágulo no interior do vaso trombolítico. Outras medicações são usadas, também, para diminuir a falta de ar e a dor cardíaca, para impedir a progressão do coágulo e para dilatar a artéria obstruída.

Outra opção de tratamento é a angioplastia coronariana, em que se utiliza um aparelho especial para acessar a artéria obstruída e desbloqueá-la, sem necessidade de realização de uma cirurgia cardíaca convencional.

Quanto ao tratamento cirúrgico, o procedimento mais conhecido é a revascularização do miocárdio (pontes de veia safena e/ou artéria mamária). Nesta situação, substitui-se o vaso obstruído por outro capaz de alimentar o coração.

É importante ressaltar que cada caso tem suas indicações de tratamento e, muitas vezes, há a associação de métodos, de forma que não se pode estabelecer uma forma padrão de solucionar o problema.

A longo prazo, deve-se prevenir novos episódios de infarto do miocárdio com o uso de medicamentos que diluem o sangue, evitando a formação de outros coágulos. Pode-se, também, utilizar remédios que diminuam os níveis de colesterol e triglicerídeos no organismo.

Como o ataque cardíaco pode ser prevenido?

Como se pode perceber, as medidas para evitar o ataque cardíaco precisam ser tomadas de forma conjunta entre as equipes de saúde e os pacientes. Nos países em que foram desenvolvidos programas comunitários de conscientização e onde foram realizadas ações preventivas, houve a diminuição na ocorrência de infarto do miocárdio e de morte súbita.

O meio mais eficaz é o controle dos fatores de risco, a partir da prática regular de exercícios físicos, da redução do nível de colesterol no sangue, do abandono do cigarro, e do monitoramento da pressão arterial e do diabetes mellitus. Além disso, as dietas alimentares, o uso de medicamentos (apenas quando indicados pelo médico) e a prática esportiva são determinantes para evitar o entupimento das artérias.

Também é importante fazer check-ups regulares com um cardiologista de confiança, para analisar a saúde das suas artérias coronárias e evitar diversas doenças que podem afetar o coração. Essa recomendação é essencial para todos os pacientes, mas especialmente para aqueles que têm mais de 45 anos e apresentam fatores de risco.

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Material escrito por:
Médico Cardiologista - CRM/SC 4101 RQE 1132

Diretor técnico da Unicardio, o Dr. Harry Correa Filho é formado em medicina pela UFSC e especialista em cardiologia pelo Instituto de Cardiologia de Santa Catarina, onde já foi diretor. É professor de cardiologia na Unisul e Pesquisador de estudos clínicos, como EMERAS, ISIS 4, PARAGON, PLATO e TRILOGY.

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